Adolescência e vegetarianismo: meu filho decidiu não comer mais carne. E agora?
É comum que a decisão de se tornar vegetariano aconteça durante a adolescência. É nesta fase que se intensifica a construção da identidade e de valores próprios. E o adolescente passa a fazer escolhas mais conscientes sobre o mundo ao seu redor.
Muitos adolescentes optam pelo vegetarianismo por motivos éticos, ambientais, de saúde ou por preocupação com o bem-estar animal. Para muitas famílias, porém, essa decisão desperta dúvidas e preocupações: será que meu filho vai receber todos os nutrientes de que precisa?
A resposta é: sim, desde que a alimentação seja bem planejada.
Diversas sociedades científicas reconhecem que uma alimentação vegetariana adequadamente planejada pode atender às necessidades nutricionais em todas as fases da vida, incluindo a adolescência.
No entanto, antes de pensar apenas em proteína, ferro ou vitamina B12, existem dois aspectos que merecem atenção especiais.
1. Avalie o motivo da escolha
A adolescência é o período de maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de transtornos alimentares e distúrbios da imagem corporal.
Por isso, a primeira pergunta não deve ser: “O que ele vai comer?”, mas sim: “Por que ele quer deixar de comer carne?”
Quando a decisão está relacionada a valores pessoais, questões ambientais ou ao respeito pelos animais, ela costuma representar uma escolha consciente.
Por outro lado, se o vegetarianismo surge como uma estratégia para emagrecer, restringir alimentos ou esconder comportamentos alimentares inadequados, é importante investigar com cuidado.
O vegetarianismo não causa transtornos alimentares, mas, em alguns casos, pode ser utilizado para justificar restrições alimentares que já fazem parte de um problema maior.
Pais e responsáveis devem observar sinais como:
- preocupação excessiva com peso e aparência;
- medo intenso de engordar;
- exclusão progressiva de grupos alimentares;
- culpa ao comer;
- isolamento durante as refeições;
- prática exagerada de exercícios físicos.
Na presença desses sinais, a avaliação por profissionais de saúde é fundamental.
2. Ser vegetariano não significa comer bem - Cuidado com os ultraprocessados.
Outro erro bastante comum é imaginar que basta retirar a carne da alimentação.
Na prática, muitos adolescentes acabam substituindo a carne por alimentos ultraprocessados, como batata frita, salgadinhos, macarrão instantâneo, biscoitos, refrigerantes e hambúrgueres vegetais consumidos com frequência.
Vale lembrar: um alimento pode ser vegetariano e, ainda assim, não ser saudável.
O objetivo não deve ser apenas excluir a carne, mas ampliar a variedade da alimentação.
Uma alimentação vegetariana equilibrada é baseada principalmente em:
- feijões, lentilhas, grão-de-bico e ervilhas;
- frutas e verduras variadas;
- legumes;
- cereais integrais;
- oleaginosas e sementes;
- tofu, tempeh e outros alimentos à base de soja;
- boas fontes de gorduras saudáveis.
Quanto maior a diversidade alimentar, maior a chance de atingir as necessidades nutricionais e favorecer uma microbiota intestinal saudável.
3 - O papel da família
Talvez a atitude mais importante seja acolher.
Quando o adolescente sente que sua decisão é respeitada, torna-se muito mais fácil conversar sobre alimentação saudável, planejamento das refeições e escolhas equilibradas.
Transformar esse momento em um conflito costuma afastar o diálogo. Já o acolhimento cria espaço para orientação, aprendizado e autonomia.
A adolescência é uma fase de descobertas e o vegetarianismo pode fazer parte desse processo de forma saudável. Com informação de qualidade, planejamento e se necessário acompanhamento profissional, é possível garantir uma alimentação completa, nutritiva e adequada para essa etapa da vida.
Procure informação, participe deste universo, leia sobre o assunto
Se precisa de orientação entre em contato.
- Melina V, Craig W, Levin S. Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2016;116(12):1970-1980. doi:10.1016/j.jand.2016.09.025. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27886704/)
- Craig WJ, Mangels AR. Position of the American Dietetic Association: Vegetarian Diets. Journal of the American Dietetic Association. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19562864/ 2009;109(7):1266-1282. doi:10.1016/j.jada.2009.05.027.
- Conselho Federal de Nutricionistas. Parecer técnico n. 09/2022 – Alimentação Vegetariana na Atuação do Nutricionista. Brasília: CFN; 2022 (https://www.cfn.org.br/wp-content/uploads/2022/10/parecer_tecnico_vegetarianismo.pdf)


